domingo, 7 de fevereiro de 2010

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Vociferando a noite à forra







De mãos e olhos trêmulos, observo a vida passar.
Mais uma noite, outra tormenta insone aguarda a mente fervilhante que, de tudo o que fez, nada consegue manter doravante. O travesseiro é esguio, bravio e relutante. Dá tapas e coices, morde e belisca. Arisco.

Levanto, pego um copo de café e vou à rua.
O abrigo dos boêmios, a efemeridade ébria da insegurança de passear por pátios e espaços vazios, a vontade solitária de encontrar companhia onde só há lamúrias, tormentas e vociferações incongruentes. Caminhar na noite só, sob a sombra de prédios sujos, sobre a terra dos dias mal-fadados.

Conto os passos.
Conto as divisões da calçada.
Conto os fuscas que passam pela rua. E para o horário, realmente, não são poucos.
Lembro da brincadeira infante de contar marcas e modelos. Penso nas pessoas que já me fizeram parceria de trabalho e farra, de forra e angústia.

Passeio.
Pé ante pé.
Um passo de cada vez.
E várias outras mensagens belas passam por meu cérebro enquanto sorrio.
- Auto-ajuda é a puta que o pariu.

Sem saúde, sem dinheiro, com vários planos mal produzidos, vivendo a vida dos outros para agradar aos olhos sabe-se lá de quem. Eu? Não. A realidade condiz como carapuça para a maioria dos que conheço. Trabalhando onde não gostam, infelizes em relacionamentos que possuem tudo para da certo, satisfeitos apenas com detalhes infernalmente imbecís. Da posse à possessividade, penso no projeto augusto de viver em paz. Se é que há.

Nada me tira da mente um vislumbre vertiginoso de uma história em quadrinhos na qual o anti-herói passa grande parte do tempo elucubrando todos os erros da humanidade e resolvendo, de forma catastrófica, os problemas dos outros. Sua sina é a má sorte, para a sorte dos outros. Em seu caminho, fogo e ferro forjaram fracassos e vitórias.

Ao amanhecer a luz crepuscular dá tons de inconsistência à realidade. A canção da vida, a beleza dos raios refletidos nos vidros das janelas, contrastando o céu e as muralhas humanas. O dia chega com a canção do renascer, do despertar do mundo. E toda ladainha bela que possa agradar ouvidos frágeis que mal sabem descrever o resultado de outro ciclo que se fecha. Um ano velho morre, uma jovem nova vive. É justo.

Pelas nove da manhã retorno da brevidade de meus sonhos de grandeza, admirando a cidade sentado à sarjeta, vendo-a pelos ângulos menos nobres, porém com toda a resignação das pessoas meramente instruídas, metidas, que acreditam piamente na superioridade de seu conhecimento. E riem! Carros, cores, pessoas. Não vejo nada além da rotina, e procuro onde fica o pequeno ícone de integração que perdi pelo caminho.

Caminho.
Sempre chega um tempo em que os sonhos de infância se tornam velhos, bobos; que os sonhos de adolescência se tornam coisas da juventude, passado. E para onde vão os olhos brilhantes de todos aqueles jovens que buscaram algo que acreditavam? E do que é feito o caráter dos adultos, senão dos anseios dos tempos já vividos?

Uma senhora passeia com seu cachorro.
Vários e vários casais, solteiros e largados praticam esportes matinais. Todos no mesmo ciclo e ritmo, sem sequer olhar um no rosto do outro. Óculos escuros às seis e quinze da manhã, fones de ouvido. Cada um em seu mundo, em uma vida de tantas vitórias que não se sabe onde foi que se tornaram líderes de seus próprios egos. Cooper, casa, café, trânsito, trabalho, almoço. Alvoroço. Trânsito, trabalho, café, casa. Casal. Silêncio defronte o altar mor da vida adulterada pelos conceitos da ignorância auto-afirmada: durante a novela, só se vai ao banheiro nos intervalos comerciais.

Dou mais alguns passos. Não sei quanto andei.
Em uma praça qualquer, compro dois pães de queijo e um café. Doce, requentado. Deve ter sobrado de ontem. Mas o calor no estômago é reanimador. Revigorado, penso se devo continuar sendo verbalmente atroz com todo e qualquer transeunte citadino. Nunca fui paladino. Resolvo que o tempo de pensar já é escasso, e fracasso em argumentar com minha consciência remotamente desperta.

Aceno.
Subo ao ônibus. Sento. Sacolejo. Desço.
Em casa, o travesseiro aguarda. Vou ter que justificar cada pensamento maldito, cada julgamento indevido.
- Merda. Esqueci de comprar pão.

Ankh
15-01-2010
Insone. De novo. Até quando?

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

(descrição do) Interlocutor

Nunca foi anjo.
É banjo.

Fala, grita, canta desafinado.
Se descuida, arrebenta cordas.
Se sorri, perde a oportunidade de ficar calado.

Um momento transeunte
Na sarjeta fantasia o tempo de alaúde
Já não tem tanta harmonia
Não procura valia

Perde o tom com facilidade
É parceiro da verdade
Mas não tem ritmo:
Digladia com a pauta até o fim.

Ankh
06-01-2009
Neste início de ano ouvi palavras que me fizeram pensar que muito vale a pena. Muito.
Obrigado, Mr. André Salvador.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Mais um ano passa.
Mais um fim de ano difícil - como muitos passados, como muitos que virão.

Ano de vitórias.
De construções de idéias e decisões por caminhos de vida.
Ganhei uma noiva.
Perdi uma irmã; prima, mas irmã.
Perdi um tio no dia de Natal.
Estou preocupado com um amigo que convalesce.
Coisas da vida.

Os revezes são os piores momentos para se passar.
Mas os melhores para pensar.
Não na tristeza, nem na sensação vazia de derrota ou impotência frente ao mundo.
Mas nos caminhos, nas estradas, nas congruências interpessoais.
É quando percebemos quem apazigua e quem quer apenas ver o fogo crescer.

2009 foi um ano de mudanças, o fim de ano está sendo de aprendizado diário.
De trabalho.
De sorrisos, abraços.
De desentendimentos e palavras duras trocadas.

E de tudo o que disse acima, nada justifica nenhuma atitude, palavra ou postura.
Somos o que somos.
O respeito é o pai da convivência.
Meus problemas são meus, assim continuarão.
A história de cada um é sempre diferente.

Desejo a todos que o ano acabe:
Como cada dia.
Como cada entardecer.
E que o amanhecer seja sempre mais belo e melhor que o anterior.
Que os ciclos se renovem.

Ankh
30-12-2009

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Valor-Valia-Valorar-Valorizar.

Tenho perdido algumas noites de sono pensando:
- O que faz a vida valer a pena?

O que vale?
O que significa o valor das coisas?
O peso de cada uma delas?

Uma casa, um carro.
Uma guitarra.
Um amigo, dois. Um casamento.
Viagens.
Trabalho.
Coisas e mais coisas.

Dinheiro.
Dinheiro.
Dinheiro.
Incrível como a maioria das respostas são relacionadas aos três últimos repetidos ítens.

Regras de conduta.
Regras de trabalho.
Regras e imposições de vida.
Regras.

Onde está a felicidade?
Nos sonhos ou nas necessidades?
Sonhos são necessidades?
É necessário ter sonhos?
Ou basta a realização material de ser um bom funcionário?
Não sei até onde cada uma dessas coisas vale a pena.

Bendito dia de elocubrações.
Falta um pouquinho de fé, e não falo dos outros.
Preciso entender porque os sonhos alheios nunca valem tanto quanto os nossos próprios.
Procuro interiormente entendimento sobre aquilo que está fora, afora. À forra.
Compreender a incompreensão.
Respeitar o desrespeito.
Abstrair a possessão.
Confiar na desconfiança.

Ser humano.
Ser.
Ou ter?

- O que faz a vida valer a pena?

sexta-feira, 27 de novembro de 2009













Outro tempo
n'outro instante
quem aqui vive em casa-grande?
Ser trabalho, trabalhista
na senzala fecha a vista.

Quer dinheiro, putanheiro
desce o lombo o ano inteiro.
Se revolta, fala alto
bate à mesa e toma um trago.
Quer dinheiro, punheteiro
p'ra beber o ano inteiro.

Sol e chuva e pés na lama
limpa as botas sobre a cama
no banheiro sua conduta
lava o rabo no chuveiro
quebra inteiro o que labuta.

Mas seu ato é p'ra que blefe:
Masturbar o bolso do chefe.

Ankh
23-11-2009

quarta-feira, 25 de novembro de 2009









Partindo do que faço,
já não quero mais palavras.
De poeta e escritor: professor;
de guitarrista, músico, artista: sonhador.

Gasto tempo em pensamento
Busco portas e saídas
E as histórias vividas
São como chuva sem vento:
Vem e vão com o tempo
Vão e vem com a lida.

Ver colores, ser as dores: amores;
amigo do peito, honesto-direito: respeito.
Egocêntrico, duro, racional: ista.
Falar, ouvir, opinar: ador.

Malabarista do palavreado.
Súbito lapso de hemorragia verbal.

Ankh
23-11-2009
Palavra-borracha: propaga e volta. Bate na cara e então solta.